PENSANDO A VIDA: uma cadência de movimentos que se inicíam com o nascimento e se prolongam através da existência de uma pessoa, até que ela se imobilioze completamente.
A vida implica num pulsar de expansão e contração, ou seja, a expiração e a inspiração. Movimentos de ritmos harmoniosos, simples, tão anatômicos que passam despercebidos, contrariando a importância que tanto merecem.
PENSANDO A IDADE NA VIDA :
Mente - Pensamento - Intelecto
Ego
o bebê que se move instintivamente em busca do leite materno quando sente fome, que chora quando sente alguma coisa que o encomoda, que tenta equilibrar a cabeça para olhar adiante, que vai se arrastando pelo chão como um lagarto para alcançar alguma coisa. Em seguida começa a engatinhar e a tentar erguer o seu próprio corpo, lutando contra a força da gravidade para se equilibrar e ficar de pé finalmente. São movimentos soltos em que todas as articulações são acionadas harmônicamente – um bebê se move com sabedoria.
O tempo passa e os corpos vão sendo dominados pela força da consciência, que por sua vez sofre interferências da mente, do ego e do intelecto. As articulações deixam de ser acionadas devidamente passando a meras acompanhantes dos movimentos. Os corpos vão se “enferrujando” - abrindo espaço para dores, cansaço. E o descaso. É comum se ouvir dizer: “é a idade que está chegando”. Do zero aos noventa, se existe a vida, a qualquer hora é tempo de se mover para renascer. Hoje distingo com clareza quem eu fui, quem eu sou e quem eu posso ser, apesar das sequelas deixadas pelos anos de todal falta da consciência do meu próprio corpo.
VIDA – ALIMENTAÇÃO X ENERGIA = IMPULSO: Eliminação de gorduras – o excesso de peso compromete os movimentos e o corpo, se transformando num convite à imobilidade.
REALIDADE ESPAÇO CORPO: Criaturas senis, corpos mumificados, memorias esfaceladas por drogas químicas ingeridas aos borbotões, retratadas aos quatro cantos de um “espaço para Idosos”. Diariamente, procurados por famílias para “resolverem” seus problemas de convivência com seus idosos, sem se darem conta de estar contribuíndo para aumentar o empilhamento de corpos amorfos com rostos entristecidos, ou melhor, sem rostos, pois tudo se apaga ao mesmo tempo.
A VIDA E O MOVIMENTO: A lembrança de uma árvore que finca suas raízes nas profundezas da terra, recebe a luz do sol, se movimenta com as lufadas do vento, renasce a cada novo amanhecer. A natureza não se abala com tudo que está acontecendo ao seu redor, pois é perseverante na sua decisão de reflorescer, de recriar, de renascer para a missão de gerar frutos. Pessoas são parte da natureza e têm poderes, como a descoberta de novas sensações ao se deixar invadir por estímulos diversos. Os sons da música preferida, o contato na pele com texturas agradáveis, a chuva forte batendo na janela, o sabor doce da fruta madura. Pessoas são passíveis de se motivarem para buscar seus próprios movimentos na vida. A inércia afasta o sorriso e a alegria de viver e a felicidade não marca hora para acontecer.
MOVIMENTO E RECONSTRUÇÃO: “Idade não é documento”, não foi e não é. Também não será também impedimento para se iniciar qualquer movimento, seja de pensar, de amar, de dançar, de escrever, de estudar ou qualquer outro que se possa imaginar. A capacidade de reconstruir faz parte da vida, independente de tempo, idade ou lugar. O ser humano sempre conviveu com as alterações climáticas, com as catástrofes que o acompanham desde sempre, mas que nunca o abateram porque o tempo que está por vir é a motivação para reconstruir.
A EXPEDIÇÃO: E o momento de partir chegou finalmente! A expedição se formou no dia 29 de março de 2008 em busca do movimento de seus corpos e através deles fazer descobertas, ainda com destino incerto e inseguro naquela ocasião. E sem medir esforços, a partir de quatro integrantes de diferentes identidades, que ao acaso se encontraram e trocaram experiências em época remota, decidiu-se tomar o rumo da pesquisa e do trabalho. Mesmo sem equipamentos, guias ou veículos adequados, a comitiva aos poucos foi se tornando confiante e com seus copos disponíveis, muitas experiências foram sendo vivenciadas. Sempre num trabalho conjunto de contatos físicos, com utilização do corpo de formas inusitadas, sempre num jogo de olhar, de cumplicidade e ousadia, constatações foram surgindo e dando contornos mais evidenciados aos caminhos da expedição. Experiências concretas onde paredes passaram a ser pensadas como corpos inertes, o corpo delimitado como sendo os cômodos da casa, movimentos a partir de fatos da memória do corpo ainda criança, escovação do corpo como sendo um bicho, ordens de movimentos, condução das partes de um corpo, ação e reação em diferentes níveis, explorando o espaço físico. Proposta de texto de Hilda Hilst, sendo apenas sussurrado e com algumas palavras soltas mais audíveis.
O texto: As coisas que se pensam no banho. Incrível! Não sei, lavo a cabeça ou não. Não gosto de lavar a cabeça à noite porque tenho a cabeça muito sensível. Já fui a vários neurologistas e eles acham que a minha cabeça é muito boa e que não podem saber o que se passa nela, aliás, com ela e me receitam bezerol e eu tomo, eu tomo bezerol mas não adianta muito. Os neurologistas são estranhos. Um deles está estudando o hipotálamo há mais de trinta anos e ainda não chegou a qualquer conclusão. Sempre que encontro com ele eu pergunto: E o hipotálamo? Ele responde: minha filha, é um mistério, um autêntico mistério. Às vezes eu tenho vontade de dizer prá ele não se preocupar mais com o hipotálamo, mas isso seria o mesmo que sentenciá-lo à morte, porque o homem só vive para o hipotálamo, pelo hipotálamo e sempre com o hipotálamo. E é difícil se acabar com uma coisa pela qual se vive. Isso é…
TRILHAS DECISIVAS: Identidade e alteridade. A pretensão de ser o outro. O “achismo” em ação, fazendo com que o “conhecer o outro” conduza ao poder de manipulá-lo, sem se dar conta de que o entendimento do outro é muitas vezes distante daquilo que se lhe está querendo impor. Os interesses não são os mesmos entre as partes.
O fator expectativa contribuindo para agravar a ansiedade que, em geral, está presente entre partes envolvidas – o eu e o outro.
É comum se ouvir ou constatar a afirmativa: “o inferno são os outros”.
Relação de corpos e/ou pessoas como sendo pedras de um rio – devir. Pessoas que não permitem ou sempre dificultam a aproximação do outro, permanecem na condição de pedras ásperas, ponteagudas. Pessoas que não admitem mudanças mas que conseguem perceber as mudanças do outro, como pedras que não se desprendem do leito do rio, mas que estão às vezes ressecadas pelo sol. Pessoas que não aceitam qualquer possibilidade de mudança e têm o discurso de que “as pessoas não mudam e são exatamente como são desde que nasceram”, como as pedras mais profundas do rio, fixas, que não chegam a ter contato com o sol.
Pessoas com a necessidade de permanecerem no mesmo lugar para não perder o conforto, o equilíbrio, a segurança. Seria o ponto de convergência da nossa expedição… corpo, movimento, transformação
Angela, D, B, X, angelsol18, expedicionária nº4